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Romances Históricos

PÚBLICO

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O Médico de Córdova Herbert Le Porrier

Título original: Le Médicin de Cordoue Tradução: Clara Alvarez

© Editions du Seuil, 1974

© Editions Bizâncio, Lda.

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Mediasat Portugal

Rua Tierno Galván. Edifício Amoreiras

Torre 3, escr. 609. 1070-274 Lisboa (Portugal)

Design Gráfico das capas: Graça Castanheira

Nota do editor: Não foi possível, relativamente a algumas das imagens de capa desta colecção, identificar os detentores de direitos das mesmas. Quanto a outras imagens, embora identificado o detentor dos direitos, não foi obtida resposta à solicitação de

autorização para a publicação feita pelo PUBLICO. Assim sendo, para as duas

situações, o PÚBLICO assume perante quaisquer detentores legais dos direitos das

respectivas imagens, os direitos devidos pela publicação das mesmas nestes livros, de

acordo com a prática corrente da editora para autores nacionais.

Impressão: Impresso na UE

Data de impressão Março de 2006

ISBN 84-9819-539-X ISBN colecção 84-9819-478-4 Depósito Legal M-l 169-2006

PÚBLICO COMUNICAÇÃO SOCIAL, S.A.

Rua João de Barros 265

4150-414 Porto

Este livro é vendido exclusivamente com o jornal PÚBLICO. Todos os direitos reservados.

HERBERT

LE PORRIER

O Médico de Córdova

Tradução de Clara Alvarez

ROMANCES HISTÓRICOS







Fustat, Nilo, 49601

Sou eu, Moisés o Espanhol , exilado de Jerusalém, filho primogénito do defunto juiz Maimon, no meu sexagésimo quinto ano de idade, quem expõe os meus maus pensamentos; os bons, como sabes, foram inscritos em inúmeras cartas e livros que circulam em torno do nosso grande mar interior, de Bagdade a Narbona e, mais além, até Tréveris e Coblença, nas margens do Mosela e do Reno. Por todo o lado onde os teus passos te conduzirem, para levante ou para poente, uma parte de mim já te terá precedido e bastará citares o meu nome para que, por amizade ou por desconfiança, as portas se te abram.

Conheces-me o bastante para admitires que não me vanglorio de tal fama. Essa espécie de reputação itinerante esteve longe de me trazer verdadeiras alegrias. Fazendo bem as contas, poderia enumerar para cada dez detractores sinceros um adulador petulante, e cedo aprendi a precaver-me, de modo que nem uns nem outros conseguiram perturbar-me o humor. Nunca deixei de partilhar a ciência que possuía, não como o rico que atira uma esmola, mas antes como o pobre que reparte o agasalho ou o quinhão de pão, sem nada esperar em troca que não fosse um pouco mais de claridade nas estradas do mundo. A minha única honra terá sido a de me afastar do caminho dos tolos e hoje, vencido pela velhice e cercado pela morte, vejo-me mais perto das trevas do que da luz, perdido entre os perdidos, ignorante entre os ignorantes, tolo entre os tolos e mais solitário do que nunca.

Ano de 1200 da nossa era. Moisés Ben-Maimon, também conhecido por Moisés Maimónides.

Para que me terá servido todo o saber acumulado, dominado e partilhado? Para me considerar mais sábio que o homem comum, para me confrontar com o segredo do universo, para ronronar feliz como um gato enrolado à volta das minhas pernas, para me enganar seriamente sem, no entanto, me enganar completamente, porque sou capaz de reconhecer o meu fracasso. O ouro que julguei amontoar e distribuir era areia. Quis domar o meu orgulho, e deixei-o fugir. Pretendi refazer a vida, e é a minha que me abandona. Será que chegou o momento de experimentar, enfim, as amarguras profundas?

A ti, que foste meu aluno e te tornaste meu mestre, suplico-te, lá na tua longínqua Provença selvagem, que escondas no mais profundo do teu coração e no mais secreto da tua casa as revelações que vou fazer. Que sejas, nesta circunstância, o meu único confidente. Que jamais este escrito caia sob um olhar incauto. Queima-o, mas não o exponhas a semelhante afronta. Não existe palavra que não seja comparável àquele ídolo a que os bárbaros latinos chamavam Jano e que não se preste a interpretações contraditórias. Se os meus bons pensamentos me valetam tantas inimizades, o que irão valer-me estes, que nunca ousei formular abertamente? Desde há muito que eles me atormentam, rostos de sombra, inatingíveis de tanto me esforçar por mantê-los à distância, incómodos de tanto me parecer que os atraio com violência. Com o avanço da idade, dou-me conta, claramente, que sem eles a minha reflexão não seria completa. O livro santo diz que devemos servir a verdade com o que temos de melhor e de pior, e eu obedeci em parte. Que valor teria uma certeza, se não fosse seguida de uma dúvida? Desde aquele dia da minha infância em que me reconheci diferente dos outros, sofridos mil reveses que quase me destruíram, e até esta hora tardia em que te escrevo, com os olhos lacrimejantes da fadiga causada pela candeia, apenas uma paixão me habitou: procurar o verdadeiro, não como um objecto desaparecido e inalcançável, mas como um estado a que é possível ascender através de imensa perseverança, paciência e humildade, e para isso protegi--me o melhor que podia de tudo o que me fizesse distrair. Poderei dizer que atingi o alvo? Sim e não. Nunca fiz batota, mas também

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não ganhei. A medida que o meu espírito se enriquecia e se diversificava, sem jamais ceder à lassidão, o meu projecto parecia cada vez mais vago, fugia como o horizonte na planície, como o vento sobre o mar. Não seria homem se não tivesse errado nesse exercício, se não tivesse enganado, ainda que sem intenção, aqueles que esperavam de mim a palavra certa. Como eu passava por ser sábio, presumia-se que fosse detentor da ciência e que a partilhasse. Assim construí o meu nicho, à escala do mundo habitado, aberto a todos os que desejavam juntar-se a mim. Os visitantes vieram em grande número, o nicho continuou vazio, infinitamente vasto para o velho adolescente febril que me precede e me segue, consumido nos seus ardores.

Não totalmente vazio, no entanto. Seria por considerar-te excepcional que abri para ti uma excepção? Quando vieste para o Egipto assistir às minhas lições, a tua grande curiosidade pelas ciências da natureza, a facilidade com que entraste nas letras hebraicas e árabes, a pertinência das tuas especulações filosóficas logo te fizeram subir bem alto na minha estima. Nos primeiros tempos, censurava-me por essa simpatia que se instalara tão depressa, pois não faltavam motivos de reserva entre nós. Eras inconstante, despreocupado, desorganizado. Querias tudo, de imediato, sem escolher. Havia na tua atitude e no teu discurso uma zombaria subtil e constante que me irritava. Não nasceras na fé dos meus pais e vinhas daquela raça que nunca deixou de nos perseguir e de derramar o nosso sangue. Mas o teu olhar era cândido, a tua voz firme, o teu porte escorreito e agradável. Mas lias latim e grego como ninguém à minha volta alguma vez o soubera fazer, e era-me bem difícil acompanhar-te nessa matéria. Mas mostravas-te aberto à nossa lei como nenhum outro estrangeiro alguma vez se mostrara, e eu tive de abandonar a minha vigilância para poder dar resposta às tuas perguntas. Tinha tido, antes de chegares, muitos discípulos que se pareciam entre si, mas tu não te parecias com nenhum deles. Longe da tua presença, prometia a mim mesmo conter-me; assim que chegavas, os meus escrúpulos desvaneciam-se. Não foi fácil aceitar o encanto da tua pessoa e a excelência do teu espírito, o brilho da tua juventude e a seriedade da tua aplicação e, durante muito tempo,

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debati-me com as minhas reticências. Mas quando, poucos meses depois da tua chegada a Fustat, me deste a ler os primeiros makâmât da tua autoria, senti por ti uma enorme alegria que nunca esmoreceu. Se tivesse podido moldar um filho a meu gosto, tê-lo-ia criado à tua semelhança, de tal maneira é verdade que a paternidade electiva é uma tentação singular de todo o homem chegado à maturidade. Tu sabes que a providência viria a conceder-me, mais tarde, um filho da minha semente, mas por ele os anos passam muito devagar e por mim muito depressa; ainda adolescente, nele só deposito as minhas esperanças.

Os três anos que viveste junto de mim foram ricos em ensinamentos para um e para outro. O meu espírito, metódico e lento, o teu, inspirado e rápido, criavam um acorde de rara qualidade. Depois de teres aprendido a geometria e a lógica, a astronomia e a física, fomos conduzidos pelo caminho mais curto às iniciações proféticas e à medicina. A pouco e pouco, concebi e desenvolvi para ti um grande projecto, alimentado por uma grande esperança. Por mais de uma vez pesei as tuas qualidades e os teus defeitos, e a balança equilibrava-se sempre. Lucidez e orgulho, fervor e imodéstia casavam-se em ti de forma perfeita. Em tudo eras arrebatado pelo excesso, e o que de outro me afastaria, em ti atraía-me poderosamente, eu, cuja filosofia foi sempre a do meio termo. Na verdade, não devíamos medir todos os seres pela mesma bitola. Em ti, anunciava-se um destino prodigioso. De regresso aos teus reinos, tão pobres de inteligências bem formadas, irias aceder aos postos cimeiros: via-te bispo, no mínimo, papa talvez e não era indiferente para as comunidades hebraicas que viviam em grande insegurança para lá dos Pirinéus, o facto de se tratar de um homem de coração e de espírito, como tu.

De certo modo, o meu projecto para o teu futuro era político, porquê negá-lo? Tinhas-me contado como estava viva no teu país a esperança de uma cultura que não fosse a das armas, que persistia a lembrança de um Abelardo, cujo trilho querias seguir com determinação mais sólida e baseada na experiência e, sobretudo, com menos ingenuidade e ostentação. Tenho para mim que só o

Narrativas curtas em prosa rimada combinada com versos, em que os árabes cultos se exercitavam.

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conhecimento pode tornar os homens melhores e não a fé cega como ensinam os vossos homens de letras, o que explica que o meu povo, cuja vocação é conhecer, não tenha igual no mundo. E tu concordaste, com palavras simples e claras, quando me comunicaste a tua convicção de que uma grande oportunidade se tinha perdido na terra com o desconhecimento e a deformação da mensagem judaica. Nesse dia, tive um impulso de te apertar contra o meu coração; mas será que se abraça um papa? E fui rezar pela tua glória, sozinho. E rezei mal, certamente.

Ao mesmo tempo, acontecimentos importantes desenrolaram-se à nossa porta. A Síria franca desencadeou um avanço brutal até ao Nilo, de onde foi desalojada pelo califado de Bagdade, que caiu com todo o seu peso em Alexandria e no Cairo. Houve milhares de mortos, uma fome terrível, epidemias pavorosas e dediquei-me de corpo e alma a aliviar tanta miséria à minha volta. Estiveste sempre a meu lado, desafiando o perigo e o contágio, multiplicando por dois os meus braços, a minha cabeça e a minha tristeza, algumas noites tão desencorajado como eu devido à nossa impotência. Eras muito mais vulnerável do que eu ao horror, não porque eu estivesse habituado a ele, nunca nos habituamos, mas porque a idade me dava mais resistência, o que não era o teu caso. A tua alegria natural velou-se e eu não tinha dúvidas de que seria irremediável. Estávamos perante tarefas imensas, que não tinham qualquer relação com as nossas forças e o nosso saber.

Privados de estudo, de meditação e de poesia, avançávamos, mutilados, por entre os escombros. Eu sabia, no fundo de mim, que este paroxismo chegaria ao seu termo, nem que fosse só por algum tempo; tu, porventura, não sabias? Muito preocupado com a situação, não prestei atenção à mudança que se operava em ti, mas ainda que me tivesse apercebido, conseguiria alterar o seu curso? O Egipto agonizava. Amolecido por séculos de profunda miséria do povo, com a corrupção, a luxúria e a ostentação concentradas num pequeno grupo, conseguira jogar habilmente com as cobiças que criara, conspirando com os gregos contra os cruzados, com os cruzados contra os turcos, com os turcos contra os fanáticos de Alepo e com estes contra todos os outros, fazendo alianças e traindo-as no mesmo instante em que eram celebradas, aterrorizado no interior

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pelos Assassinos e no exterior por inúmeras rivalidades, o Egipto entregou-se, entorpecido e aliviado, à conquista de Saladino .

Voltarei a falar-te deste homem que se tornou meu protector e amigo. Por agora, trata-se da tua partida. Uma manhã, apareceste na minha frente, saco ao ombro, os olhos rasos de lágrimas, a voz embargada. Estavas farto, dizias, daquela vida povoada de monstros e de inocência escarnecida, daquele desespero, daquele esgotamento estéril, daquela fealdade sem fim. Com o coração apertado, não te fiz perguntas. Estava por demais distraído na minha dor para tentar reter-te. Que poderia dizer, que te demovesse das tuas razões? Não eras, como eu, educado de pais para filhos para enfrentar a adversidade; não pertencias ao meu povo, que nunca deixou extinguir-se o pavio da esperança no auge da tempestade, no mais escuro da noite. Há mais de doze séculos que temos um encontro capital marcado, a que não podemos faltar: no ano que vem, em Jerusalém; tu só marcaste encontro contigo próprio. Aceitei que saísses da minha vista, não da minha vida. A política que tinha baseado em ti ruiu quando te converteste à solidão, mas em momento algum o lamentei. Será que encontraste a grande paz lá nas tuas montanhas, no meio das tuas ovelhas e das tuas cabras? Quase me convenço de que assim terá acontecido e, de certa maneira, invejo-te.

Passa bem.

Poderia acabar aqui este livro, que previa longo. O essencial está dito. Só me resta contar-te as minhas errâncias e os meus erros, o inevitável percurso rumo ao fracasso e ao nada. Mas isso é secundário. Que importa o que só a mim importa escreveu magnificamente o poeta cordovês Al-Mrhô; e eu acrescentaria um outro pensamento que tanto me agrada: Uma vida não vale nada, mas nada vale uma vida. Não me farás a injustiça de julgar que é para valorizar a minha que faço estas citações. Aquele que eu pretendo alcançar está no espelho do qual tu és o estanho, e é para visar bem alto que preciso da tua cumplicidade distante. Sei o que me custou estar presente no mundo. Sempre paguei a pronto, sem protestar. Sem grande margem de erro conheço o preço exacto da existência. O que fiz não procede nem de uma graça, nem do

Salah-al Dim Yaussauf. 10

acaso: Foi um esforço deliberado, iniciado há cerca de meio século em plena lucidez, e empreendido sem descanso apesar das adversidades. Assumi como tarefa introduzir uma ordem na desordem, uma lógica na confusão das ideias e dos acontecimentos, uma racionalidade na desorganização do Verbo. Outros antes mim o fizeram; outros, depois de mim, aplicar-se-ão em consegui-lo. É trabalho de homem doméstico, em tudo semelhante ao da mulher doméstica: logo que a atenção esmorece o pó acumula-se e é preciso limpá-lo.

De certo modo tive grande ajuda deste século caótico que clamava por um profeta e só teve filósofos. É pouco, reconheço. Temos, todavia, que nos contentar. Fui e sou um deles, nem melhor nem pior do que os outros. Li muito, meditei muito, escrevi muito, esses foram os meus maiores prazeres. Se hoje os meus olhos cegam, não é devido a uma nova verdade, mas antes ao desgaste; se a minha memória enfraquece, não é sob o peso de uma evidência, é de saturação. Resta-me, e tem carácter de urgência, um último enigma a pôr em ordem: eu, a minha pessoa dolorida e asmática, o núcleo desta vida que não vale nada e que tudo vale, o que me importa e o que não me importa. Não saberia desejar o descanso, sem ter dedicado a essa questão as minhas últimas forças.

Um comerciante marselhês deve embarcar em Alexandria na próxima lua, com um carregamento de sedas. Levará as folhas que eu tiver conseguido escrever a Ibn Tibbon, que, sem as ler, tas fará chegar. Outros fragmentos ser-te-ão entregues por vias semelhantes. A pirataria no mar e o banditismo nas estradas da Provença poderão fazer perder partes deste livro. Os meus receios de que tal venha a acontecer diminuiriam se mandasse fazer uma cópia, mas a tentação de correr riscos leva a melhor. Para quê preocupar-me com as lacunas duma obra que trata duma existência lacunar? Nas minhas costas, o tempo esboroa-se. Nenhuma continuidade resiste ao uso. O próprio universo é uma sucessão de plenos e de vazios. Que mais posso exigir do balanço de uma vida? Dantes, quando começava um livro, rezava com fervor para conseguir acabá-lo. Mas este já estava pronto antes mesmo de o ter começado e só tenho de pedir fidelidade à minha memória.

Terás certamente notado que nunca invoquei Deus. Ele terá a sua hora. Tem-nas todas.
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